
por Carlos Beni
Hoje, rock é um nome que serve para tudo; das experiências conceituais de Brian Eno, ao batuque elétrico de Afrika Baambata. Nessa condição de nome que não define um gênero musical mas uma atitude é que o Biquini Cavadão é rock. Se as afirmações de influências musicais diversas já viraram lugar comum no rock brasileiro,o Biquini Cavadão prova sua diversidade, pondo lado a lado, o príncipe da bateria da Portela, Armando Marçal, e o "bluesman" de Santa Catarina Celso "Blues"Boy, o veterano bebopper Aurino e os olhos de lince de Herbert Vianna.
Se esses encontros improváveis acontecem no disco do Biquini Cavadão, não foi por ousadia pela ousadia, ou um mero exercício de "namedropping", mas porque a música do B.C. é um produto híbrido, que incorpora os estilos mais disparatados: tecno, funk, soul, samba, Jazz, música erudita, rock'n'roll e bossa nova.
A música é híbrida, mas a originalidade na abordagem dos temas, o compromisso com o novo, a simplicidade na forma e a eficiência rítmica, são características típicas da atitude rock de fazer música.
0 Biquini Cavadão é uma banda
Rock, sem preconceito
Brasileira, sem xenofobia
Adolescente, sem imbecilidade
Difícil, sem hermetismo
Pop, sem idiotia
pretensiosa, sem esnobismo
Fundamentalmente honesta.
0 Biquini Cavadão é o resultado da inutilidade estudantil de alguns amigos. André Álvaro, Bruno e Miguel, eram colegas de colégio, que entre outras coisas gostavam de música.André e Bruno eram inseparáveis, e juntos começaram a freqüentar os ensaios do então desconhecido grupo Kid Abelha, (em que eu tocava), e dos não menos incógnitos Paralamas do Sucesso.Após se familiarizarem com as regras do nobre esporte anglo-americano do rock'n'roll, André,Álvaro, Bruno e Miguel começaram a ensaiar sua própria banda. Bruno conta: "Tudo não passava de uma brincadeira, nos ensaios na casa do Miguel, com sintetizador, baixo e banco de cozinha." Quilômetros de ensaios se seguiram, até a composição da primeira canção, Tédio, escrita a quatro mãos, rapidamente seguida por outra criação/coletiva No Mundo da Lua.
Foi por esta época, início de 84, que Bruno e André me mostraram Tédio numa fita gravada num ensaio. Eu adorei a música, e para espanto deles propus que nós gravássemos uma fita "demo". A canção também foi mostrada ao Herbert Vianna, que achou Tédio genial, e se prontificou a tocar guitarra quando gravássemos a "demo". Entretanto, o Biquini Cavadão relutava seriamente em gravar a música. Achavam que não estava pronta, que talvez não devesse ser lançada, que o rádio não tocaria, etc...
Depois de Herbert e eu insistirmos muito, eles concordaram. A música foi gravada no estúdio Sonoviso de 8 canais, e a fita resultante desta sessão foi entregue a Maurício Valladares, que a tocou no seu programa, e a colocou na programação da Rádio Fluminense-FM. Tédio foi um "cult-hit" no Rio no verão 84/85. Em março de 85, após receber propostas de diversas gravadoras, o Biquini Cavadão assinava com a Polygram. Logo após saía um compacto com as músicas Tédio e No Mundo da Lua, suas únicas composições até então.
Seguiram-se mais quilômetros de ensaios, e novas composições: Inseguro de Vida, Hotel e Timidez. Ao mesmo tempo, começou uma procura desesperada por um guitarrista. Diversos foram audicionados, mas a alguns faltava capacidade técnica, a outros estilos. Então surgiu Carlos Coelho, que além de ser altamente competente, se encaixou perfeitamente no "modus operandi" biquiniano.
Assim, com sua formação completa, e um exíguo repertório de 6 músicas, o grupo. começou sua carreira de shows. Sempre ensaiando e compondo (já com Carlos Coelho plenamente incorporado à criação coletiva) surgiram mais canções: Reco e Domingo.Nessa altura dos acontecimentos, Tédio já era um "hit" nacional, sendo bem executado em todo país. Por isto a Polygram resolveu lançar outra canção do Biquini Cavadão em disco. Para isso escolhemos a música No Mundo da Lua, que já tinha sido gravada no compacto, sem que o resultado nos tivesse agradado. Com um novo arranjo, e outro andamento a música ficou como queríamos. No Mundo da Lua foi lançada num disco-mix, junto com Tédio-Remix.
0 que mais impressiona no Biquini Cavadão é a velocidade com que a banda evoluiu nesses poucos meses. Tanto como conjunto, como músicos individuais, eles progrediram incrivelmente. Álvaro e André; que começaram a tocar seus instrumentos no início do conjunto, já adquiriram estilos próprios na bateria e no baixo, respectivamente. Miguel conseguiu adaptar exemplarmente sua técnica de pianista erudito ao sintetizador. Coelho cresceu em bom gosto e versatilidade. Finalmente; Bruno ganhou a presença cênica e a segurança vocal que marcam os shows atuais do Biquini Cavadão.
Provavelmente, a característica mais marcante de Cidades em Torrente é a diversidade de estilos e linguagens que as canções apresentam.Isso se explica, por diversas razões, primeiramente porque o BC é um conjunto sem líderes, que compõe todas as suas músicas de forma coletiva, em ensaios que em geral degeneram em pancadaria generalizada. Assim, a letra de uma canção pode ter sido escrita por três, ou quatro pessoas diferentes, e a música é invariavelmente produto do trabalho de todos.
Outro fator que explica a variedade de sons e estilos que o disco mostra é a verdadeira neurose de originalidade que ataca o Biquini Cavadão. Nada pode parecer, ainda que vagamente, com alguma coisa já existente; todas as canções passam por um rigoroso exame de originalidade.
Contudo, o que melhor explica este disco é o próprio amadurecimento do conjunto. 0 disco poderia ser dividido basicamente em quatro fases: A primeira, a mais adolescente, é a época de formação da banda, com Tédio, No Mundo da Lua e Inseguro de Vida. Na segunda, as letras são mais pessoais, e a música mais elaborada. Desta fase são: Timidez, 0 Drama e Hotel. A terceira fase é de canções cujas letras têm o comentário social por tema, e uma presença mais essencial de guitarras nos arranjos. Desta fase são: Reco e Domingo.Na última fase são as canções que foram compostas no estúdio, as letras são bastante subjetivas, e as músicas são as mais complexas do disco. Nesta fase aparecem, Múmias e Caso
Para se entender o Biquini Cavadão é fundamental se ter em mente que o conjunto não é uma reunião de músicos competentes, mas antes um grupo de inteligências, que usam a música como veículo para exprimir suas angústias, perplexidades, inquietações e esperanças. Para o Biquini Cavadão a música é definitivamente um meio, nunca um fim em si mesmo.
Isso explica, por um lado, a participação de tantos músicos convidados no disco. Pois estas colaborações externas foram essenciais para se alcançar as sonoridades que nós buscávamos. De fato, a procura de sonoridades pouco usuais foi um problema constante neste disco. Esta preocupação com detalhes é típica do BC, que, aliada a minha neura perfeccionista, resultou num disco riquíssimo em detalhes.Cidades em Torrente é uma introdução, ao que esperamos, seja uma longa carreira. Por isso era importante que o disco fosse uma boa amostra do que é o Biquini Cavadão, na sua diversidade, complexidade e possibilidades. Nesse sentido creio que alcançamos nosso objetivo.
Numa banda como o Biquini Cavadão, em que o "input" de cada um dos membros é igual no produto final, é essencial se ter uma idéia de como são os indivíduos, para se compreender o conjunto.
ÁLVARO - BATERIA
ï Não tem nenhum gosto para se vestir, usa short o tempo todo.
ï Estudou violão clássico, tem unhas grandes até hoje
ï É um poeta que escreve coisas infantis.
ï Não entende nada de rock'n'roll, acha que Charlie Watts é uma marca de uísque
ï Apesar do apelido, raramente bebe álcool
ï E um ser contraditório, é capaz dos gestos mais delicados e das maiores grossuras.
ï "The boy has a sick sense of humour".
ï É profundamente disciplinado, Por isso foi o que mais cresceu como instrumentista na banda
ï Não sabe falar no telefone.
ï É o iniciador das canções mais cinematográficas e irônicas.
ï É um ser cândido de reações inesperadas.
ANDRÉ (SHEIK) - BAIXO
ï É o nervosinho do grupo, tem ataques de histeria sem razão aparente.
ï 0 empresário, o homem das decisões de negócio.
ï Escreve canções que ele chama de "projetos" , escreve páginas e páginas para o mesmo projeto.
ï Articulado, fala as coisas deforma exata e enche o saco de quem não fala assim.
ï Sério como um ataque do coração, tudo tem uma importância fundamental.
ï Toca baixo de ouvido, embora seja meio surdo.
ï É horrivelmente exigente consigo mesmo e com os outros, acha todos os shows horríveis.
ï 0 último dos românticos, um eterno apaixonado
ï Tem idéias musicais muito originais que leva dias para conseguir aprender a tocar
BRUNO GOUVEIA
ï É um louco completo, canta num show de madrugada, e vai direto para a aula de Eletricidade na Faculdade.
ï Um turbilhão de imaginação, tem sempre um milhão de idéias em qualquer ocasião
ï É ridiculamente complicado, leva 15 minutos para explicar algo que podia ser dito numa frase.
ï Incrivelmente musical, é capaz de cantar as idéias musicais mais complicadas.
ï Adora Fórmula-1 e computadores.
ï É uma flor de criatura, periodicamente.
ï É um tímido, fica sem graça com facilidade.
ï Tem o maior conhecimento de música popular do conjunto.
ï Não tem nenhum senso de oportunidade.
ï Escreve as metáforas mais absurdas da língua portuguesa.
ï Tem um grande senso de estilo, um homem elegante.
CARLOS COELHO-GUITARRA
ï Vive correndo, está sempre atrasado, ninguém sabe por quê.
ï É um preguiçoso nato, só faz as coisas sob coação.
ï Passa dias trancado no seu quarto tocando guitarra.
ï E o "playboy" "do Biquini, uma galinha irrecuperável.
ï Um cabeça dura por definição
ï É um ingênua: Faz as declarações mais cretinas com a cara mais lavada.
ï E o mais constante alvo de sacanagens dos outros membros do conjunta
ï E um sujeito de boa paz o músico mais completo do conjunto, um guitarrista como poucos
ï Uma criatura extremamente sensível, que se esconde atrás das suas brincadeiras.
MIGUEL - TECLADOS
ï É um perfeito "gentleman"
ï Tem uma extensa formação como pianista erudita
ï Rarissimamente perde acalma, nas situações mais exasperantes mantêm sua fleuma britânica.
ï É um rapaz de boa índole incapaz de ficar zangado por muito tempo por alguém.
ï E um romântico incorrigível e irrecuperável, uma alma pura.
ï Miguel é uma espécie de cientista louco dos teclados, está sempre às voltas com timbres lúgrubes nos seus sintetizadores
Carlos Beni
fevereiro/1986