Tivemos um dia muito tranqüilo no fim de semana mais tranqüilo dos últimos meses, mas isto não fez com que tivéssemos um encerramento monótono. Nãããão senhores. Muitas surpresas nos esperavam no show a ser realizado em Jerônimo Monteiro, cidade perto de Cachoeiro do Itapemirim no Espírito Santo e que nos recebeu com o maior carinho.
O show corria bem quando Patrick chega ao meu ouvido e avisa: “Fique atento: a garota da garrafa d’água tá na área”. “Sério? Tem certeza que é ela?”, perguntei. “Bem, já achava que era e confirmei pois ela mandou um dedo com a cara bem fechada”. Tentei encontrá-la no meio da multidão mas não via. Continuamos o show. Fui na coxia e Gian já me avisava a mesma coisa: que a garota da garrafa d’água tava na área.
“De quem vocês estão falando?” , certamente você me perguntará. Bem, para entender bem a história, volte no tempo neste blog para ver a quizumba que foi um show em Varre-Sai, no estado do Rio. Pra resumir, esvaziei uma garrafa d’água na cara desta menina após ser xingado gratuitamente de todos os nomes possíveis. Nada que valesse ou justificasse o meu gesto, mas foi o que aconteceu. Não fui vitima nem réu. Foi um show conturbado mesmo.
Ao falar com Gian, ele, por precaução já havia conversado com ela durante o show, até para se certificar de suas intenções. Foi então que me disse, que ela, apesar de tudo que tinha acontecido, havia viajado para curtir o show. Entretanto, tinha raiva do que havia acontecido, adorava a banda e especialmente a mim. De repente, tudo ruiu com aquele banho que afogou sua agressividade no dia, mas levou junto seu carinho.
Disse pro Gian então chamá-la para conversar. Fizemos o show todo e tão logo saí do palco, ela estava com uma amiga. Fui simples e direto:
- Olha, estou aqui para te pedir desculpas pela água.
- Você me desarmou! – respondeu sem saber o que dizer – Mas porque você fez isto naquele dia?
- Eu não fiz gratuitamente, acho que talvez não se lembre mas eu é quem devia saber por que fui xingado tanto por você. Daí minha reação. Sinceramente, melhor deixar para lá. Aconteceu, foi chato, mas dá pra gente encerrar este problema.
Ela conversou mais um pouco e nos despedimos.Pelo Gian, soube que ela ficou feliz com o desfecho. Eu também.
Como todos vocês sabem, o Biquíni tem como lema: “Música se faz com a cabeça, com o coração e com atitude.Música não se faz com a bunda”. Nos shows fazemos críticas a toda uma geração de músicas de baixo nível que tem tocado por aí. Podem ser engraçadas mas são como piadas: após ouvi-las três vezes, do que vai rir? O problema é que isto passou a gerar alguns emails irritados dos funkeiros e até de quem não parece ouvir funk, mas considera este tipo de música um reflexo da sociedade miserável de nosso país, sobrando para mim a pecha de insensível.
Por isso mesmo acho que posso aproveitar o blog para deixar claro alguns pontos:
1-Não sou contra o funk. O falecido Claudinho e seu amigo Buchecha são muito queridos pelo Biquíni. Alias, o Buchecha até regravou Tédio em versão Funk e se fosse o caso, teríamos proibido. Uma dupla de funkeiros chamados Fisk e Bony também gravaram Timidez e achamos legal. Não faz o meu estilo, com certeza, mas não sou contra. Ainda assim, em 1999 chegamos a fazer uma referência em Zé Ninguém aos versos de Cidinho e Doca: “eu só quero é ser feliz/ andar tranqüilamente na favela onde eu nasci”. As vezes, recebíamos vaias de nosso público por cantarmos versos de funk em um show de rock, mas acreditávamos que os versos tinham a ver com nossa música e nossas idéias. O que ouvimos hoje são canções de péssimo gosto. E, realmente, manifestamos nossa opinião nos shows. Já falei isto em shows como neste de Jerônimo Monteiro, bem como no festival de verão de Salvador (na mesma noite em que Calcinha Preta se apresentaria), e em outras cidades onde o funk tocava direto antes do nosso show. Ou seja, isto não se trata de falar uma frase de efeito para ser aplaudido, que fique bem claro. Isto é o nosso pensamento.
2-Em geral, muita gente vem nos falar sobre este comentário no show. Pessoas que apóiam a idéia de que “catuca, catuca lá no fundo” ou “Abre as pernas, faz beicinho Vou morder o seu grelinho” não são o que se pode chamar de música. E pra não dizer que isto é “papo de nostalgia” , mesmo a galera que ainda engatinhava nos anos 80 e hoje curte Biquíni, Capital, Kid Abelha, Paralamas e muitas outras bandas, concordam com o que digo no palco. O que faço é exprimir minha opinião e a da banda, que aliás é compactuada com a maioria do público presente. Ainda assim, temos de admitir que as músicas desta galera são de grande sucesso, agradando até Caetano Veloso. Neste caso, acho que nosso público e eu é que somos minoria.
3-Nunca associei a favela ao funk. Não quero saber se o sucesso de Dança da Motinho é de autoria de Tom Jobim, de um cara que mora na Barra da Tijuca ou na Rocinha. Tanto faz: para mim é ruim do mesmo jeito. O Funk (e frisando: o de baixo nível) nada tem a ver com a falta de ensino ou condições. Poetas nascem na favela também, do mesmo modo que bandidos podem ser filhos de ricaços. Mesmo no funk, Cidinho e Doca são pobres e fizeram uma música cuja letra merece nosso respeito:”Eu só quero é ser feliz andar tranqüilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar.” Portanto, funk pode ser bem feito. E quando o rock se aventurou na mesma praia do besteirol também não curti. Ainda assim, bastaria um nome para você ver que miséria não é sinônimo de música de péssima qualidade: Cartola. Servente de pedreiro, somente aos 66 anos gravou seu primeiro disco. E é querido e amado por quem o conhece.
Eu poderia citar outros cem compositores nascidos na favela em condições igualmente miseráveis e autores de sucessos antológicos cuja reverência deveria ser feita por todos os músicos do país. E, se queremos fazer música na favela, tenhamos Cidade Negra e Rappa como norte de nossa bússola ao invés de apostarmos em em composições que soam mais como um estupro aos nossos ouvidos.
grande abraço a todos