Atendendo a pedidos constantes dos fãs, fomos convidados pelo Café Cancun em BrasÃlia, para uma noite em sua casa. Eu mal havia dormido direito nos últimos dias e fiz o vôo torcendo para chegar logo na cidade para apagar no quarto de hotel, mas a agenda de compromissos, para minha surpresa, estava cheia. Só de pensar nisso, gelei. Queria ir logo pro hotel tirar um cochilo, que fosse de apenas duas horas só para recarregar um pouco o meu ânimo. O problema foi que tão logo desfiz minhas malas e coloquei o alarme do celular para me acordar em menos de uma hora e cinqüenta minutos, batem na minha porta.
- Senhor, precisamos que troque de apartamento – dizia um atendente
- Por que?
- Nosso recepcionista fez a reserva errado e colocou-o no apartamento errado.
- Olha, eu preciso dormir. Daqui a duas horas eu terei o maior prazer em ajudá-lo….
- Senhor, tem que ser agora
- Não. Vou dormir. Preciso dormir. Até mudar-me pra outro quarto, terei perdido uns 20 preciosos minutos! Lamento, mas não posso ser prejudicado pelo erro do seu recepcionista. Depois eu até troco mas agora não – expliquei sem sequer abrir a porta. Irritado, voltei para cama, liguei para a recepção e pedi que não me incomodassem mais.
O resultado foi pior que eu imaginava. Telefonemas constantes para meu quarto, insistindo para eu mudar logo. Tirei o telefone da tomada. Batidas na porta cada vez mais fortes, como seu eu fosse um criminoso foragido. Culminou com os seguranças e camareiras invadindo o meu quarto. Permaneci calado e imóvel na cama, esperando pra ver o que mais fariam. Ouvi alguém sugerir que me carregassem mas, talvez por me acharem grande, ou por terem visto a bagunça que consegui fazer no quarto nos poucos minutos em que entrei nele, desmotivaram-lhes. Fecharam a porta e finalmente pude dormir mais uma hora e dez minutos. O resultado foi um festival de entrevistas entremeadas sempre de pequenos cochilos ao longo do dia.
No meio disso tudo, fomos convidados pelo Shopping Pier 21 para deixar nossas mãos na calçada da fama. Tal como em Hollywood, uma placa de cimento nos esperava para receber nossas impressões e autógrafos. Foi uma bela homenagem e agradecemos pela lembrança. Uma curiosidade: as mãos tem que passar por uma bela besuntada de vaselina para que o cimento não grude na gente. Em meio a nomes como Lars Grael, Oscar Schmidt, Plebe Rude e Los Hermanos, deixamos nossa marca por lá também. Seguimos direto para a passagem de som. QuerÃamos testar algumas alterações no show e o ensaio, por isso, foi bem longo, seguido de jantar no local. Quando cheguei no hotel novamente, só me restava tempo de tomar banho e me arrumar pra sair.
O local estava bem cheio. Ainda que fosse uma casa para menos de mil pessoas, confesso minha preocupação com a lotação. Era dia do Porão do Rock, um mega evento em BrasÃlia. Muita gente, entre as duas opções, declinaria de nosso show. Foi bom ver a casa apinhada de gente e com uma energia tão grande quanto a do público do festival. Assim sendo, batizamos o show de O Sótão do Rock. O palco tinha uma peculiaridade. Ficava num canto da casa. Ou a gente tocava de frente para um lado do público e ignorava a lateral ou invertÃamos os lados. O jeito foi fazer um show com a banda tocando na diagonal. Era estranho, pois havia uma coluna bem na minha frente, mas a alegria contagiante dos brasilienses expulsou qualquer preocupação maior de nossas cabeças. O clima foi ficando tão animado que quase tivemos um problema sério. Um rapaz mais exaltado acabou subindo na torre de iluminação bem em frente ao palco e quase a derruba. Foi preciso os próprios fãs segurarem a torre para evitar um acidente. Por sorte, tudo não passou de um susto. O encerramento do show contou com nosso amigo Philippe Seabra, da Plebe Rude. Como não tÃnhamos ensaiado nada, tocamos juntos Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje a Rigor. Da próxima vez, quem sabe não rola Proteção ou Até Quando Esperar? Finalmente, na última música, chamei ao palco um cara que era muito parecido com o Coelho. Sem que nosso guitarrista o visse, coloquei uma guitarra no nosso convidado e chamei-o ao palco cantando os versos de Zé Ninguém: Quem foi que disse que os homens nascem iguais? Parecia um jogo dos sete erros em pleno palco!
Atendemos alguns fãs nos camarins, entre eles um que me disse ter ficado triste com minhas crÃticas à BrasÃlia em pleno show. As vezes é difÃcil tornar clara nossas idéias. Nada tenho contra a cidade ou quem mora nela, mas é fato BrasÃlia concentra um número gigante de contraventores, bandidos, desonestos e corruptos que foram eleitos por nós – infelizmente. À cidade, peço que não se envergonhe destes breves passageiros. Sua beleza e o carinho de seu povo sempre falarão mais alto.