Setembro começou com uma tour por Minas Gerais. Começamos com um show aberto à população em Muriaé. O show foi bom, mas o que mais nos marcou, especialmente a mim e Miguel, foi a visita ao hospital do câncer que tem por lá. Uma super instalação bem montada, exemplo em toda região e que atende desde crianças até idosos. Conhecemos um garoto risonho de nome PatrocÃnio, outro jovem que sofria de câncer na pleura, outro ainda que tinha no pulmão, e um senhor com leucemia, pai de um garoto de quatro anos. Em todos os quartos, muita felicidade, animação e uma louca vontade de sair daquele hospital, como se fossem condenados por um crime que não cometeram (ou à s vezes,não se deram conta de estar cometendo, no caso do fumante que comprometeu seu pulmão). Em cada um, a vontade de fazer coisas simples: pisar na terra, caminhar, ver o filho crescer, ir a uma igreja agradecer a graça concebida. Alguns se converteram a alguma religião, outros eram muito novos para os temores da vida lhes encaminhar para uma apelação divina, e como todos os jovens, eram cheios de esperança. Diante disso, eu e Miguel conversamos com cada um sobre o quanto era importante você nestas horas gostar muito de si. Entre olhos brilhando e marejados, passamos por todos os quartos, dando autógrafos, apertos de mão, ouvindo a história de cada um também. SaÃmos muito mexidos com a experiência. Já fizemos estas visitas antes: lar de cegos, manicômios, sempre que podemos dar alguma atenção, damos um jeito. Mas ao lidarmos com uma doença que, embora já esteja bem mais controlável, ainda mata, não havia como não pensar no futuro delas. Voltei pro quarto do hotel querendo chorar, mas achei que não deveria sentir pena, apenas pensar como foi bom para eu também pensar em coisas tãosimples que passam por nossas vidas e nem damos valor.
No dia seguinte foi a vez de visitarmos Congonhas, cidade histórica do interior de Minas. Tivemos a sorte de dispormos de um tempinho para ver a igreja principal e suas famosas esculturas de Aleijadinho. Tiramos muitas fotos, aproveitamos como bons turistas que somos. A beleza daquela cidade, patrimônio histórico, nos cativou. Mais tarde, chegou a hora do show, que aconteceu na boate Tribo. O local estava lotado, o palco era mÃnimo, encaixotado sob uma marquise. A temperatura era alta e com a iluminação tão próxima a nós, tudo virou um forno de microondas.
Começamos com o pé esquerdo. Em Chove Chuva, por vezes, atiro água no público. Com o calor que fazia ali, achei que não haveria problema, que a galera até se refrescaria. Por azar, a água atingiu uma luz negra sobre o público, explodindo em cacos bem quentes que caÃram sobre alguns expectadores. Irritados, tacaram latas sobre nós. Uma acertou a pilastra, a centÃmetros de Coelho, que nada sabia. Outra acertou os teclados de Miguel. Antes de seguirmos o show, fui informado por eles e tratei de explicar ao público que não tÃnhamos intenção de agredir ninguém tacando água neles, embora eu mesmo só tenha sabido da lâmpada após o show. Assim sendo, pedimos novamente desculpas pelo transtorno. De todo, modo, o show foi tenso pois você nunca sabe se o recado foi bem dado ou se alguém poderia tacar algo novamente. Vira um jogo de ?atire ao pato? sendo que o pato é você. Ainda que isto tenha mexido conosco, buscamos não transparecer e seguimos o show mantendo o pique. Terminado o show, voltamos pro Rio.
Nossa próxima parada foi em Lima Duarte, à s vésperas de mais um dia da independência. Mas que independência é esta? Só se for a de Portugal mesmo. Continuamos dependentes de tudo, devendo fortunas, pagando sempre com muito mais que deverÃamos e sendo roubados por tantos que estão no governo, seja de uma simples prefeitura até o congresso que vota e aprova sempre seus incrÃveis aumentos de salários. Foi em tom de protesto que desabafamos naquela noite e foi assim que recebemos um caloroso apoio da população daquela cidade. Experimentamos uma nova introdução pra Timidez. Ficou muito boa. A cada dia, buscamos melhorar ainda mais o show. Foi um prazer tocar em Lima Duarte encerrando a primeira metade de nossa tour mineira.