Pra Não Dizer Que Não Lembrei Das Flores:
quarta-feira, março 31st, 2004Para lembrar os 40 anos do Golpe Militar e os 20 das Diretas Já, a TVE Rede Brasil convidou diversos artistas de todos os estilos para cantarem músicas destas épocas. Ao Biquini foi sugerida ‘Disparada’, canção de Geraldo Vandré e Théo, interpretada na época pelo grande Jair Rodrigues. Curiosamente é justamente cantando esta música que tenho como lembrança de uma das primeiras músicas que aprendi. Lembro bem como cantava : “Eu venho lá do serrrrtão/ Eu venho lá do serrrrtão…” com erres bem carregados dada a minha mineirice. Como qualquer criança, entoava a música muitas vezes cantando tudo errado. Ao invés de cantar: “por qualquer coisa de seu” eu dizia “por qualquer coisa Dirceu”. Em tempos como os de hoje, não deixou de ser irônico notar que minha versão de menino seria mais adequada para o cenário polÃtico, mas me ative à original. Cantá-la seria voltar ao tempo mais remoto de minha vida de cantor, se posso me arriscar a dizer isto, já que na época eu nem sonhava ser este o meu destino.
Inicialmente, pensamos em um arranjo com a banda, mas acreditamos ser melhor reduzi-la a um dueto voz/violão, como já havia feito em Coleção, lançada no Cd Barzinho e Violão. O que Coelho não esperava é que a música tivesse tantas partes, tantas idas e vindas, tantas convenções! Até terça feira estávamos completamente perdidos no arranjo. Já havia decorado a letra e decidimos tirar um verso final para sintetizá-la. Ao passarmos o som, começamos a achar o arranjo muito simples e, loucura das loucuras, Coelho resolveu dar umas mexidas no violão a pouco mais de 24 horas do show. Eu devo ter cantado mais de 20 vezes com ele aqui em casa até nos acertarmos com as partes, letra e detalhes. Encontramos todos os artistas reunidos no Garden Hall e era engraçado ver a ponta de nervosismo em cada um. Tentava me distrair em conversas com o pessoal da Pitty e do LS Jack. Cada um estava, a seu modo, concentrado. Enquanto isso, Coelho ensaiava pela trigésima vez seus violões. Fiquei vendo as apresentações da coxia enquanto não chegava nossa vez. Era como se fôssemos ser sabatinados por aquele público que mal conseguia enxergar de onde estava.Chegou a hora. Pra relaxar, sabÃamos que, se não ficasse bom, farÃamos de novo. Afinal, era uma gravação. Não foi preciso.
Subimos ao palco dediquei a canção aos autores e a Jair Rodrigues. Nosso arranjo fugiu um pouco do regionalismo presente na versão original. Ficou levemente pop, mas em seguida, Coelho desceu a mão no seu violão, como se castigasse o danado, tirando um som forte, vigoroso. Comecei cantando muito suave, quase no sussurro, para poder subir mais conforme a canção se desenvolvia. Ao terminarmos, a platéia urrou. Uma boa sensação correu nas veias. Coelho ainda perguntou se precisávamos tocar de novo. Eu disse que havia trocado algumas palavras, mas nada que comprometesse. Uma nova versão ficaria diferente, mas não melhor que esta. Agradecemos e saÃmos do palco com os corações a mil. Engraçado ver como o frio na barriga ainda acontece mesmo depois de 20 anos vivendo disso. E é bom saber que ele ainda existe! Vai ao ar no domingo.






