Em 1989, após um ano sem lançar, gravamos o Lp Zé, contendo as músicas Teoria, Bem Vindo Ao Mundo Adulto e Meu Reino com boa execução. A gravadora entretanto estava em profunda crise administrativa e o resultado foi um disco meio que engavetado após dois meses de lançamento e baixas vendagens. Os resultados colhidos com Meu Reino e Bem Vindo… foram fruto de nossa insistência, bem como o apoio de alguns radialistas que apostavam no Biquini. Bem, tudo isto para lhes contar que ficamos apertados de grana naquela época.
Consegui então um emprego inusitado: cantar no coral contratado pela Herbert Richards como ‘free lancer’ nas dublagens de desenhos animados. Foi assim que conheci muita gente boa, como Branca Monjardim, seu marido Mário (vulgo ‘Salsicha’ do Scooby Doo), sua filha Leila, os irmãos Selton e Danton Melo, e mais uma turma de dubladores geniais.
O que esta galera faz é puro milagre. Os desenhos são gravados originalmente em vários canais, nos EUA, com arranjos separados, tudo que tem direito. Chegam no Brasil com apenas um ou dois canais para serem dublados, incluindo corais, efeitos de voz, tudo isto usando apenas um microfone no centro captando tudo em um take só! O erro de um comprometia tudo. Proibido desafinar (nem havia computador para corrigir eventuais deslizes).
Foi uma escola e tanto! Aprendi ‘no grito’ a arranjar e abrir vozes, dosar volume, timbrar e muito mais. Como a minha voz era relativamente conhecida e eu viajava muito, não tinha a menor chance de conseguir um personagem de destaque. Imagine se precisassem de mim e estivesse no interior dando show? Naquele tempo nem havia celular para me acharem. Portanto, já era bom demais estar ali do lado de tantos mestres me dublagem e fazendo parte do coral.
No primeiro dia, estava ansioso para participar daquilo tudo. Branca, que arregimentava e coordenava as gravações disse para mim que seria apresentado a todos e que no final gravaria algo, ganhando meu primeiro ‘din din’. Acontece que, embora tenha chegado cedo, não houve muitos progressos no dia e não havia o que gravar após seis horas de trabalho árduo deles. Eu estava impressionado com aquele ambiente, me divertindo e fazendo amizades, e nem notei que o dia se passou num piscar de olhos.
Eis que a Branca chegou pra mim e disse-me sem graça: ‘Poxa, Bruno, não tenho como colocar você hoje…”.De repente, sua voz parou no ar, seu olhar foi até a esquina e em seguida me perguntou: Você sabe cantar em falsete? Bem fininho?
- “Claro que sim” - respondi prontamente. Não era tanto a grana que me interessava naquele momento; o que queria mesmo era poder aproveitar meu ‘brinquedo novo’, após ver todos dublarem.
- Que bom! Eu tenho um coral agora para três mulheres, mas posso transformar o trio em quarteto sem problemas e assim você ganha algo por ter vindo hoje aqui. Amanhã a gente se organiza melhor.
E foi assim que eu estreei no mundo da dublagem. Acreditem se quiser: cantei o tema de abertura de Meu Querido Pônei:
“Com alegria e fantasia
Eu sei que vamos brincar
Querido Pônei
Querido Pônei…”
Toda vez que passava na TV eu tinha que parar para ver e rir, mas rir MUITO! Uma amiga minha costumava me ligar sempre que via o programa, só para dizer que estava incrédula que uma das vozes era a minha.
- Bruno, estou vendo Meu Querido Pônei.
- Que bom – já respondia com um sorriso no rosto.
- VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO! Acabou minha fantasia! Você é um dos pôneis!
- Calma, eu só dublei a música de abertura…
- Eu não acredito, não a-cre-di-to ….- desabafava e desligava.
Fiz poucos ‘freelas’. Primeiro porque mesmo com a falta de shows, estávamos sempre viajando para divulgar o Biquini e com isto eu não era encontrado com facilidade. Ainda sim, deu pra cantar em programas como Garfield, Disneylândia e outros que, sinceramente, não me lembro.
Espero um dia voltar a participar do mundo das dublagens. Alguns colegas meus já fizeram filmes da Disney e eu gostaria de cantar tb em um destes personagens, quem sabe um vilão? Afinal de mocinhos bonzinhos, me basta o pônei. E aos que me sacaneiam com esta história, prefiro ser o querido pônei do que a egüinha pocotó
saludos!